"O Filho de Mil Homens": uma travessia simbólica pela lente da Psicanálise
- SIRLEI PEREIRA NUNES
- 4 de dez. de 2025
- 2 min de leitura

O Filho de Mil Homens é um filme que provoca pela delicadeza e pela força com que aborda os temas do desejo, da falta e da filiação. Sua potência simbólica dialoga com com algumas demandas vivenciadas na clínica, sobre o olhar da psicanálise, nos mostra que os laços que nos constituem não são dados, mas construídos, e sempre atravessados pelo inconsciente.
Crisóstomo, ao desejar um filho, encarna a condição humana fundamental: somos marcados por uma falta que nos move. Seu desejo não é preencher um buraco, mas abrir um espaço de criação subjetiva. Na psicanálise, é isso que funda a função paterna: não o sangue, mas o desejo que autoriza, nomeia e inaugura um lugar possível para o outro existir.
Ao acolher Camilo, Crisóstomo faz operar algo que Freud e Lacan descrevem como transmissão simbólica: um legado que não se herda, mas se recebe no campo da palavra, do olhar e do reconhecimento. É nesse encontro que o menino passa a “existir para alguém”, condição essencial para existir no mundo.
O filme insiste em nos lembrar que a parentalidade é sempre uma produção, não um dado natural. Somos todos “filhos de mil homens” porque somos tecidos pelos discursos, histórias e marcas de muitos outros que, ao longo da vida, nos inscrevem em lugares distintos e nos ajudam a nos constituir como sujeitos.
Instigante e poético, o filme convoca a pensar que a verdadeira filiação não está no corpo, mas no gesto ético do cuidado, na abertura ao encontro e na coragem de desejar o outro para além de si.
Uma obra para tocar o que em nós é mais íntimo: o desejo de pertencimento e de ser reconhecido.



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